A
Responsabilidade
Social

A pioneira Norma Portuguesa (NP) 4469-1:2008 assume que a Responsabilidade Social (RSE) numa organização consiste no assumir da responsabilidade pelos impactos das suas decisões, atividades e produtos, fomentando um comportamento ético e transparente, consistente com o desenvolvimento sustentável e a procura pelo bem-estar da sociedade, tendo em conta as necessidades e expetativas das suas partes interessadas.

Hoje a responsabilidade social é transversal a todo o tipo de organizações e é indissociável dos conceitos de ética, desenvolvimento sustentável e criação de valor partilhado. O conceito de RSE tem vindo a evoluir desde o altruísmo pessoal dos/as administradores/as das empresas e da filantropia empresarial para uma perspetiva estratégica de criação de valor partilhado.

Ser socialmente responsável assume-se como uma tendência emergente da gestão das empresas, assente num conjunto de princípios e compromissos através dos quais uma organização define o seu papel e a relação com os seus stakeholders.

A RSE NAS PME

Frequentemente associada à ação de grandes empresas, a RSE está muitas vezes relacionada com a resposta a obrigações legais em assuntos relacionados com os direitos humanos; práticas laborais responsáveis; cumprimento das diretrizes ambientais, de auditoria e certificação; accountability (prestação de contas) e práticas anti-corrupção. As pressões sociais, económicas e ambientais diferem significativamente das grandes para as pequenas empresas e esse fator é responsável pelo diferente grau de motivação e de compromisso destas para com a RSE.

Apesar da relevância e contemporaneidade da Responsabilidade Social em Portugal, os dados revelados através de estudos e auscultações permitem concluir que a adoção de boas práticas não é ainda generalizada nas empresas portuguesas, sobretudo PME, pelo que o nível de integração dos aspetos ambientais e sociais na sua gestão diária assume ainda um caráter informal e não estruturado (Santos, 2011).

No panorama transnacional, as PME são o tipo mais comum de empresas na União Europeia. Podem não saber ou não usar o termo “RSE”, mas através das relações que estabelecem com os colaboradores, com a comunidade local e com os seus parceiros de negócio, as empresas têm geralmente uma abordagem responsável. Para a maioria das PME, o processo pelo qual cumprem as suas metas de responsabilidade social permanece informal e intuitivo (Comissão Europeia, Estudos de Mercado Interno, Indústria, Empreendedorismo e PME[1]).

RESTRIÇÕES À RSE

Para a realidade das PME, a responsabilidade social representa um desafio diferente, sendo frequentemente relegada pela escassez de tempo, restrições financeiras ou de recursos. Segundo Santos (2011), com base em resultados de investigação, as ações de âmbito social das PME surgem frequentemente associadas à filantropia ou a ações pontuais de voluntário na comunidade local, sendo ainda parco o seu compromisso além fronteiras. Por exemplo, o número de PME portuguesas signatárias do Global Compact das Nações Unidas, apesar de ter vindo a aumentar continua a manter-se nas 19 empresas[2].

PRÁTICAS DE RSE

Este estudo “CSR in Portugal: From a Paternalistic Approach to Lacking Contribution to Sustainable Development” apresentou os resultados das práticas de RSE nas PME em Portugal e concluiu que a principal forma de ação é a escolha por patrocínios e donativos em detrimento de práticas dirigidas aos/às colaboradores/as ou de envolvimento e ação na comunidade. A prática de filantropia das empresas auscultadas (patrocínios e donativos) foi de 76%, sobretudo dirigida a eventos de cariz “cultural e ambiental” (32%) e “apoio a campanhas de caridade e marketing social” (9%).

Acerca das políticas internas de promoção da diversidade e da igualdade de oportunidades, o estudo apurou que apenas 10% das empresas participantes contratam pessoas socialmente desfavorecidas (por exemplo, pessoas com deficiência física ou doença mental, ex-reclusos ou toxicodependentes).

Concluiu ainda que as suas principais partes interessadas são os clientes, os colaboradores e os fornecedores, sendo que as parcerias com outras organizações (por exemplo, ONG’s, entidades públicas, escolas ou universidades) revelam-se de menor importância para as PME. 

MOTIVAÇÕES PARA A RSE

A implementação das práticas de RSE pelas empresas em geral e, em particular, pelas PME é mais dependente das motivações básicas dos gestores/as e administradores/as e os valores ético-sociais emergem como a razão mais fortemente associada às práticas de responsabilidade social por parte das PME (Observatory of European SMEs, EC 2004).

Segundo Branco (2015), as motivações que favorecem as práticas de responsabilidade social estão relacionadas com o aumento do “desempenho empresarial”, resultante de uma redução nos custos e / ou vendas mais elevadas (71%); o aumento no nível de “satisfação dos funcionários” (70%); a “lealdade do consumidor e do cliente” (69%); e os “princípios éticos e cívicos” (61%).

BENEFÍCIOS DA RSE

Auscultadas acerca do que consideram ser os maiores benefícios de praticar a RSE, as PME participantes reportaram, por ordem decrescente: “melhor reputação” entre clientes/consumidores e parceiros comerciais (78%); “maior motivação dos funcionários” (75%); “aumento da qualidade do produto/serviço” (73%); e “melhor produtividade” (69%).

O mesmo estudo revela que apesar da maioria das empresas participantes não ter políticas ambientais formalmente definidas, a ação é sobretudo marcada por práticas de redução da poluição e do lixo, através da reciclagem e da redução do desperdício.

OBSTÁCULOS À RSE

Os principais obstáculos identificados pelas PME na incorporação da RSE, apontados pelo mesmo estudo, são a “falta de apoio público” (41%) e “recursos financeiros insuficientes” (42%). A “falta de tempo” (56%) e “falta de informação” (54%) e a “inexistência de relacionamento com as atividades da empresa” (51%) são apontadas como obstáculos menos evidentes mas que também condicionam a implementação de práticas de responsabilidade social.

TIPOS DE APOIO PARA A RSE

Os tipos de apoio e recursos percecionados como necessários pelas PME e fundamentais para o seu envolvimento em práticas de responsabilidade social são a necessidade de “aprender sobre as melhores práticas” (77%); a “existência de incentivos fiscais e de outra ordem” (74%); a “disponibilização de formação ” (71%); a “partilha de boas práticas” (68%); e o “apoio púbico do Estado” (66%). Estes resultados demonstram a necessidade das empresas em obter maior informação, formação e mentoria de terceiros.

Considerando o impacto que as PME têm na criação de emprego e no crescimento económico, o aumento do potencial da RSE é um desafio para todos. As atividades de mentoria revelam-se assim fundamentais para possibilitar a implementação de práticas de responsabilidade social de PME e transformar a RSE informal e não estruturada em práticas planeadas, estratégicas e relevantes para o negócio.